O antigo dirigente da UNITA, Lukamba Gato, voltou a revisitar um dos momentos mais delicados da história política de Angola, ao recordar o primeiro encontro directo entre representantes da UNITA e do Governo da então República Popular de Angola (RPA), realizado nos dias 25 e 26 de Abril de 1990, em Portugal.
O encontro decorreu num convento em Évora, sob mediação das autoridades portuguesas, numa fase em que a guerra civil angolana já durava há 14 anos e o ambiente político era marcado por profunda desconfiança entre as partes.
Segundo Lukamba Gato, apesar de todos falarem de “democracia”, cada lado tinha uma visão completamente diferente sobre o futuro político de Angola.
O primeiro frente-a-frente entre UNITA e Governo da RPA
A delegação da UNITA era composta por Alicerces Mango e Lukamba Gato, enquanto o Governo da RPA foi representado por Pitra Neto e Cirilo de Sá, conhecido como “Ita”.
A reunião teve carácter exploratório e, segundo o relato, o Governo pretendia que tudo decorresse de forma secreta.
A mediação portuguesa esteve a cargo de Durão Barroso e António Monteiro.
O objectivo principal era avaliar possibilidades para um entendimento político que pudesse abrir caminho ao fim da guerra.
A democracia que dividiu as negociações
De acordo com Lukamba Gato, a UNITA defendeu imediatamente a necessidade de reconhecimento mútuo entre as partes.
A proposta passava pelo reconhecimento da legalidade do Governo, ainda que a sua legitimidade fosse questionada, enquanto o Governo deveria reconhecer a legitimidade política da UNITA como força de oposição.
O choque ideológico no centro das conversações
Foi durante a discussão sobre o modelo de sociedade para Angola que surgiram as maiores divergências.
A UNITA defendia uma democracia multipartidária, um Estado de Direito e uma economia de livre mercado.
A reacção da delegação governamental, segundo o antigo dirigente da UNITA, revelou resistência profunda a qualquer mudança estrutural do sistema político vigente.
O chefe da delegação governamental chegou mesmo a considerar a visão apresentada pela UNITA como “incompatível com a cultura africana”.
A declaração foi interpretada pela delegação da UNITA como um sinal claro de que o regime ainda não aceitava plenamente o pluralismo político.
Governo queria integrar a UNITA no sistema já existente
Ainda segundo o testemunho de Lukamba Gato, o Governo defendia que Angola já possuía um sistema democrático “avançado” e que a solução passaria apenas pela integração de elementos da UNITA nesse modelo político.
O mediador português terá reconhecido, diplomaticamente, que seria difícil contrariar os argumentos da UNITA, por estarem “politicamente correctos”.
Para a delegação da UNITA, ficou evidente que o regime mantinha a estratégia de absorver adversários políticos sem alterar a essência do sistema.
O fracasso das negociações abriu caminho para nova ofensiva militar
Face à falta de entendimento, o encontro terminou sem avanços concretos.
Pouco depois, o conflito intensificou-se com o lançamento da grande ofensiva militar conhecida como “O Último Assalto”, dirigida contra os territórios controlados pela UNITA.
A paz só avançou após o fracasso militar
Segundo Lukamba Gato, apenas após o insucesso dessa operação militar o Governo decidiu regressar à mesa das negociações, em 1991.
Foi nesse momento que acabaram por ser aceites os principais pontos defendidos pela UNITA: multipartidarismo, Estado de Direito e abertura económica.
O antigo dirigente conclui que a paz em Angola começou também nesses contactos discretos e difíceis, onde inimigos de guerra aceitaram discutir o futuro do país como adversários políticos e não apenas militares.
Redação: Angola Breaking News
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