A revelação da existência de uma vala comum com mais de 500 ossadas humanas no chamado cemitério da Mulemba, em Luanda, está a provocar uma nova tempestade política em Angola. O anúncio feito pela CIVICOP (Comissão de Reconciliação em Memória das Vítimas de Conflitos Políticos) acontece num momento considerado altamente sensível dentro do MPLA e levanta fortes suspeitas de manipulação política em torno da sucessão partidária e da recandidatura de João Lourenço à liderança do partido.

A descoberta, apresentada oficialmente nesta sexta-feira, apanhou muitos sectores da sociedade de surpresa, sobretudo porque há anos circulavam denúncias sobre a existência de restos mortais naquele local. Ainda mais polémica foi a publicação, pelo Jornal de Angola, de uma extensa lista com mais de 600 nomes de alegadas vítimas ligadas aos massacres que se seguiram aos acontecimentos do 27 de Maio de 1977.

CIVICOP SOB PRESSÃO E ACUSADA DE SELETIVIDADE

A CIVICOP, criada em 2019 sob orientação do Executivo angolano, volta agora ao centro das críticas. Diversos analistas, activistas e sectores políticos questionam como uma comissão equipada com recursos técnicos, especialistas e apoio internacional só “descobre” oficialmente a vala comum sete anos depois do início dos seus trabalhos.

A redação da Angola Breaking News entende que esta demora alimenta inevitavelmente dúvidas sobre os reais interesses por detrás da divulgação do caso neste preciso momento político. Para muitos observadores, a comissão tem demonstrado maior agressividade mediática na exposição de crimes atribuídos à UNITA, enquanto episódios historicamente associados ao MPLA continuam envoltos em silêncio institucional ou revelações cuidadosamente controladas.

Não por acaso, a UNITA afastou-se da comissão alegando falta de imparcialidade e alegada instrumentalização política do processo de reconciliação nacional.

RECANDIDATURA DE JOÃO LOURENÇO SURGE NO CENTRO DA POLÉMICA

O aspecto mais explosivo do caso reside no timing da divulgação. A revelação das ossadas aconteceu poucas horas antes da reunião do Bureau Político do MPLA que confirmou a recandidatura de João Lourenço à liderança do partido.

Nos bastidores políticos, cresce a percepção de que o tema do 27 de Maio poderá estar a ser usado como ferramenta de pressão interna dentro do MPLA, numa altura em que aumentam os sinais de desconforto e disputas silenciosas pela sucessão política.

A situação ganhou ainda mais tensão após rumores sobre uma eventual candidatura de Irene Neto à presidência do partido. Filha do primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto, Irene Neto surge inevitavelmente associada ao período histórico mais sombrio do pós-independência.

Para vários sectores da opinião pública, não se pode ignorar a possibilidade de o reaparecimento mediático das ossadas servir indirectamente para fragilizar figuras internas que possam representar alternativas à actual liderança.

HIGINO CARNEIRO TAMBÉM É APONTADO COMO ALVO

Outro nome frequentemente citado nos debates políticos é o do general Higino Carneiro, que já manifestou ambições políticas dentro do MPLA. O militar afirmou anteriormente ter participado na captura de Nito Alves, uma das figuras centrais da alegada tentativa de golpe de Estado de 1977.

Para observadores políticos, a reativação pública do tema do 27 de Maio poderá igualmente funcionar como instrumento para desgastar adversários internos e relembrar episódios históricos capazes de influenciar o actual jogo de forças no partido governante.

FERIDA HISTÓRICA OU ESTRATÉGIA POLÍTICA?

A redação da Angola Breaking News considera que, embora a busca pela verdade histórica seja legítima e necessária, o contexto e a forma como estas revelações estão a ser conduzidas deixam espaço para sérias dúvidas sobre motivações políticas ocultas.

Quase cinco décadas depois dos acontecimentos de 1977, milhares de famílias continuam sem respostas definitivas, sem justiça e sem reconciliação plena. Entretanto, o reaparecimento deste tema em momentos decisivos da vida política nacional levanta questões inevitáveis: estaria o passado a ser usado como arma política para consolidar poder no presente?

Enquanto o país procura respostas, cresce também a sensação de que o 27 de Maio continua a ser uma ferida aberta, não apenas histórica, mas profundamente política.


Texto: Ilídio Manuel
Redação: Angola Breaking News

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