Kamalata Numa considera acontecimentos do Uíge um alerta para 2027
O general Kamalata Numa considera que os recentes acontecimentos registados na província do Uíge constituem um preocupante sinal sobre o ambiente político que poderá marcar as eleições gerais de 2027 em Angola. Numa mensagem divulgada esta segunda-feira, 10 de agosto de 2026, o dirigente da UNITA classificou os acontecimentos como um “teste antecipado” para o próximo processo eleitoral e dirigiu uma mensagem crítica ao Presidente da República, João Lourenço.
A posição de Kamalata Numa surge num momento de forte tensão política no Uíge, onde confrontos envolvendo cidadãos e forças policiais provocaram preocupação e reacenderam o debate sobre a actuação dos órgãos de segurança perante actividades políticas da oposição.
Na sua análise, o general considera que os acontecimentos devem ser encarados para além da dimensão policial imediata. Para Numa, o episódio levanta questões mais profundas sobre a independência das instituições do Estado, a neutralidade das forças de defesa e segurança e as condições que estarão disponíveis para a realização de eleições livres e transparentes em 2027.
Kamalata Numa critica instrumentalização das instituições do Estado
Kamalata Numa sustenta que Angola continua a enfrentar problemas relacionados com uma cultura política que, na sua perspectiva, permite a concentração excessiva do poder e a utilização das instituições públicas em benefício de interesses partidários.
O general recorre a uma linguagem particularmente dura para descrever aquilo que considera ser a degradação da cultura política nacional. Na sua interpretação, práticas como corrupção, manipulação política, violência e desinformação acabam por ser normalizadas quando as instituições deixam de funcionar com independência.
Apesar das críticas, Numa faz uma distinção entre as instituições e os agentes que nelas trabalham. O general reconhece o comportamento de profissionais da Polícia que, segundo os relatos relacionados com os acontecimentos no Uíge, terão procurado prestar auxílio a cidadãos afectados pela violência, pelos disparos e pelo gás lacrimogéneo.
Para o dirigente da UNITA, esta distinção é fundamental. A crítica ao funcionamento de uma instituição não deve significar uma condenação generalizada dos seus membros.
Segundo a sua perspectiva, Angola precisa de uma Polícia capaz de proteger os cidadãos, de Forças Armadas comprometidas com a defesa da Pátria e de órgãos de segurança subordinados à Constituição e à lei.
Actuação policial no Uíge levanta questões sobre 2027
Um dos pontos mais contundentes da declaração de Kamalata Numa está relacionado com a alegada presença de efectivos policiais deslocados de Luanda durante os acontecimentos no Uíge.
O general questiona a eventual utilização de unidades especializadas contra cidadãos desarmados e considera que, caso tenham ocorrido actos de violência desproporcional ou motivados por interesses políticos, as circunstâncias devem ser devidamente investigadas pelas autoridades competentes.
A questão ganha particular relevância porque o país se aproxima de um novo ciclo eleitoral.
Para Kamalata Numa, a actuação das forças de segurança durante períodos de tensão política constitui um indicador importante sobre o grau de preparação das instituições para garantir um processo eleitoral verdadeiramente competitivo.
O dirigente defende que o Estado não deve utilizar a força pública como mecanismo de resolução de conflitos políticos. Na sua visão, divergências entre partidos devem ser tratadas através do diálogo, da liberdade de reunião, da campanha eleitoral e do voto.
O “teste antecipado” para as eleições de 2027
A expressão “teste antecipado de 2027” utilizada por Kamalata Numa representa o centro da sua análise.
Para o general, o que ocorreu no Uíge permite observar antecipadamente como poderão reagir determinadas instituições perante uma eventual intensificação da disputa política no período que antecederá as eleições gerais.
Numa questiona, sobretudo, se as instituições estarão preparadas para garantir que todos os concorrentes tenham condições semelhantes durante a campanha eleitoral.
O processo democrático, argumenta, não se limita ao dia da votação. Envolve também liberdade de campanha, protecção dos eleitores, funcionamento independente das assembleias de voto, transparência na contagem e publicação dos resultados e respeito pela vontade expressa nas urnas.
Neste contexto, o general defende que Angola deve evitar uma lógica de confronto político permanente e apostar numa competição eleitoral baseada em regras claras e respeito pelas instituições.
Hierarquia militar não significa obediência cega
Outro aspecto relevante da declaração está relacionado com a disciplina e a hierarquia dentro das forças militares e policiais.
Kamalata Numa reconhece que a hierarquia é essencial para o funcionamento das Forças Armadas e dos órgãos de segurança. Contudo, alerta que a obediência hierárquica não pode ser utilizada como justificação automática para actos contrários à Constituição ou à legislação.
Na sua leitura, a autoridade dos superiores hierárquicos encontra limites na lei.
O general defende, por isso, uma interpretação segundo a qual militares e agentes policiais devem cumprir ordens legítimas, mas não podem considerar a expressão “recebi ordens superiores” como uma espécie de imunidade perante eventuais actos ilícitos.
A questão, segundo Numa, ganha especial importância quando estão em causa operações relacionadas com actividades políticas.
Para o dirigente, a lealdade dos efectivos das Forças Armadas e dos órgãos de segurança deve ser dirigida à República, à Constituição e à Pátria, e não a qualquer partido político.
“As Forças Armadas não pertencem a nenhum partido”
Na sua mensagem, Kamalata Numa reforça uma ideia que considera fundamental para o futuro político de Angola: as instituições militares e policiais pertencem ao Estado e não a organizações partidárias.
O general sustenta que as Forças Armadas e os órgãos de segurança devem actuar de acordo com a Constituição e a legislação nacional, independentemente de quem esteja no poder.
A advertência ganha peso num contexto em que a oposição tem manifestado preocupação relativamente ao espaço político disponível para a realização de actividades partidárias.
Para Numa, qualquer utilização da força pública para intimidar cidadãos por razões políticas representaria uma distorção da missão constitucional dessas instituições.
Milhões de militantes não significam milhões de votos
Kamalata Numa também questiona a utilização de números relativos à dimensão das organizações partidárias como argumento para antecipar resultados eleitorais.
Na sua perspectiva, a existência de milhões de militantes ou simpatizantes não garante automaticamente milhões de votos.
O general lembra que cada eleitor possui liberdade para decidir o seu voto e pode alterar a sua preferência política independentemente da sua filiação partidária.
Por isso, considera que o verdadeiro indicador de uma eleição deve ser o voto depositado nas urnas e posteriormente contabilizado de forma transparente.
A mensagem representa também uma crítica à ideia de que a força organizativa de um partido pode ser confundida com uma garantia antecipada de vitória eleitoral.
Juventude terá papel importante em 2027
Na parte final da sua declaração, Kamalata Numa atribui à juventude angolana uma responsabilidade particular no próximo processo eleitoral.
O general defende que os jovens devem participar activamente na vida política, mas rejeita qualquer recurso à violência como instrumento de transformação política.
Na sua perspectiva, a participação democrática deve passar pelo voto, fiscalização, acompanhamento dos processos eleitorais e exigência de transparência.
A mensagem procura, assim, deslocar o debate da confrontação física para a disputa política e institucional.
Para Numa, o futuro de Angola não deve ser decidido pela capacidade de um grupo impor-se pela força, mas pela capacidade dos cidadãos exercerem a soberania através das urnas.
Uíge pode servir de alerta para Angola
Ao concluir a sua reflexão, Kamalata Numa apresenta os acontecimentos do Uíge como uma oportunidade para que o Estado retire ensinamentos antes das eleições de 2027.
O general considera que o episódio poderá servir de alerta sobre os riscos que precisam de ser evitados no próximo processo eleitoral.
Entre as suas preocupações estão a alegada instrumentalização das forças de segurança, a violência política, a falta de confiança nas instituições e a possibilidade de utilização do aparelho do Estado para favorecer interesses partidários.
A mensagem termina com uma defesa do Estado Democrático de Direito e da soberania popular.
Embora as declarações de Kamalata Numa representem a posição política do próprio e devam ser analisadas nesse contexto, elas colocam novamente no centro do debate nacional uma questão decisiva: estarão as instituições angolanas preparadas para garantir uma disputa eleitoral em 2027 baseada na igualdade, liberdade, segurança e respeito pela vontade dos eleitores?
A resposta dependerá não apenas dos partidos políticos, mas também da capacidade das instituições do Estado de demonstrarem, na prática, a sua independência e compromisso com a Constituição.
Por: Kamalata Numa
Redação: Angola Breaking News
