
Luanda – O antigo primeiro-ministro de Angola, Marcolino Moco, voltou a provocar reflexão no espaço público ao publicar um texto carregado de ironia e crítica sobre a realidade política do país, abordando de forma mordaz os limites da democracia interna, o peso do poder presidencial e o ambiente político que, segundo ele, desencoraja alternativas reais de liderança.
No texto intitulado “Angola e as maravilhas da política”, Moco explica, em tom satírico, as razões pelas quais nunca se atreveria a candidatar-se à Presidência da República por um partido que não fosse “abençoado” pelo Presidente em exercício. Aos 72 anos, idade que curiosamente coincide com a do actual Chefe de Estado, o político sugere que qualquer tentativa nesse sentido seria rapidamente neutralizada por acusações absurdas, campanhas de descredibilização e humilhação pública.
Recorrendo ao exagero intencional, Moco afirma que poderiam até inventar que, no tempo em que foi governador do Bié, teria pretendido “transferir o Mar do Lobito” para o interior do país, numa alusão clara à fabricação de processos e narrativas políticas contra adversários incómodos. Seguir-se-iam, segundo descreve, comícios triunfalistas, discursos depreciativos e aplausos em massa, num ambiente que mistura partido e Estado, bandeiras e interesses, líderes e multidões.
O antigo governante questiona ainda se este é, de facto, o cenário que Angola deveria continuar a prever em pleno 2025, mais de duas décadas após o fim da guerra em 2002 e cinquenta anos depois da adesão de muitos militantes ao MPLA, incluindo ele próprio, que entrou no partido em 1974, ainda jovem.
Com a expressão final “É complicado. Hoko!”, Marcolino Moco encerra um texto que, embora irónico, levanta questões profundas sobre alternância de poder, maturidade democrática e o espaço real para o pluralismo político em Angola.
O posicionamento do antigo primeiro-ministro tem gerado reacções nas redes sociais e nos círculos políticos, sendo visto por muitos como um retrato crítico e desconfortável das “maravilhas” e contradições da política angolana contemporânea.
