
A governadora de Cabinda, Suzana Abreu, tem na sua agenda desta segunda-feira, 25 de novembro, a inauguração, às 18h00, de postes de iluminação pública instalados no troço que liga o supermercado Nosso Super ao Hospital Geral de Cabinda, no município do Liambo. Um acto aparentemente simples, mas que, pelas circunstâncias, diz muito sobre o estado da governação na província e no país.
Cinquenta anos depois da independência, o país continua a celebrar como grandes marcos aquilo que deveria ser rotina administrativa. Inaugurar postes de iluminação pública, com cobertura da imprensa e com a presença da principal figura da província, é reflexo directo de uma cultura institucional que transforma o básico em espetáculo político.
A realidade é clara: este tipo de intervenção não exige nem justifica a presença da governadora. Trata-se de um acto operacional que poderia ser liderado pela administradora do município do Liambo, sem pompa, sem discursos e sem cerimoniais. Quando se chama uma governadora para este tipo de tarefa, não estamos apenas a desperdiçar tempo institucional; estamos a revelar um preocupante desvio de prioridades.
É justamente esta necessidade de exibir pequenos feitos como grandes conquistas que denuncia um vazio de realizações estruturantes. Enquanto se inauguram postes de luz como se fossem obras monumentais, permanecem por resolver desafios profundos e urgentes: estradas esburacadas, hospitais com carências graves, escolas sem condições, comunidades sem água potável e bairros inteiros sem saneamento básico.
A iluminação pública é importante, sem dúvida. Mas deve ser tratada como aquilo que é: uma obrigação de rotina de qualquer administração que funcione com normalidade. Transformá-la em evento solene demonstra menos sobre a obra em si e mais sobre a fragilidade do projeto governativo.
Ao insistir em transformar tarefas mínimas em acontecimentos políticos, o governo da província arrisca-se a criar uma narrativa artificial de progresso, enquanto a população continua à espera de mudanças reais e duradouras. O povo de Cabinda merece bem mais do que cerimónias para celebrar o mínimo.
Com todo o respeito devido, mas também com a firmeza que a crítica construtiva exige, a governadora ainda está a tempo de rever esta decisão. Evitar este tipo de espetáculo que muitos classificam como “uma autêntica palhaçada governativa” seria um gesto sensato e de maturidade política. Deixe que a administradora do Liambo faça o que precisa ser feito, caso considerem realmente necessária uma “inauguração”.
O verdadeiro compromisso com o desenvolvimento não se faz com tesouras de cortar fitas, mas com políticas públicas sérias, discretas e transformadoras.
By: Lourenço Lumingo ✍️
