O antigo primeiro-ministro angolano convida à reflexão sobre o radicalismo político, a herança colonial e o futuro de uma Angola que precisa superar o descontrolo histórico.

Um ponto de partida: entre a razão e o exagero
No texto intitulado “Um ponto de vista: O português André Ventura tem toda ou nenhuma razão?”, o político e intelectual angolano Marcolino Moco propõe uma análise lúcida e desarmada sobre as declarações e atitudes do polémico político português André Ventura. O autor reconhece que, na complexidade das relações humanas e políticas, raramente alguém está “100% certo ou 100% errado”.
A partir desta premissa, Moco introduz uma reflexão madura e equilibrada: as divergências ideológicas e culturais não devem impedir a busca pela compreensão mútua. Tal como aconteceu na África do Sul, durante a difícil transição do apartheid para a democracia multirracial, figuras como Nelson Mandela, Desmond Tutu e Frederik De Klerk demonstraram que o diálogo, mesmo entre adversários, pode evitar tragédias sociais e políticas.
O tom de Ventura e a hipocrisia europeia
Marcolino Moco não esconde o incômodo que sente com o tom e o estilo de André Ventura. Considera-o excessivamente nacionalista e, por vezes, provocador. No entanto, o autor distingue a forma do conteúdo. Embora discorde do extremismo de Ventura, reconhece que parte das críticas do político português merece reflexão.
Segundo Moco, o “nacionalismo lusitano” de Ventura pode soar exagerado e juvenil, mas é menos perigoso do que a hipocrisia que domina grande parte das elites políticas europeias. Ele critica a complacência dos chamados “partidos democráticos tradicionais”, que durante décadas alimentaram uma relação paternalista e contraditória com as antigas colónias africanas.
Enquanto condenam discursos nacionalistas na Europa, essas mesmas elites fecharam os olhos à corrupção, à má governação e ao enriquecimento ilícito de elites africanas, muitas vezes em conluio com interesses estrangeiros. Moco resume este pensamento ao afirmar que, em tempos de paz, “os partidos democráticos tradicionais europeus nos têm acalentado como elites políticas predadoras dos seus próprios povos”.
Repensar a colonização e as narrativas do passado
Num dos trechos mais provocadores do texto, Marcolino Moco reconhece que André Ventura “tem toda a razão quando nos ajuda a repensar que nem tudo na colonização foi negativo”. Essa afirmação, longe de ser uma apologia ao colonialismo, é um convite à reflexão desapaixonada.
Para Moco, insistir na narrativa de que “corremos com o colono” como símbolo de libertação é uma simplificação perigosa. O autor convida os leitores a relerem os programas originais dos antigos movimentos de libertação nacional, nos quais não se previa o êxodo massivo da população branca de Angola após a independência.
Pelo contrário, o ideal libertário defendia uma Angola para todos, sem distinção de raça ou origem. A saída desordenada de milhares de cidadãos Portugueses, muitos dos quais nasceram em Angola e se consideravam tão angolanos quanto qualquer outro foi, segundo Moco, uma consequência do descontrolo que marcou aquele período histórico.
O preço do descontrolo
A palavra “descontrolo” torna-se central na análise de Marcolino Moco. Ele a utiliza para descrever não apenas o caos da independência, mas também a desorganização política e social que ainda hoje afeta o país.
Para o autor, o verdadeiro mal da Angola contemporânea não está no passado colonial, mas na persistência de uma cultura de desordem e manipulação. Ele critica as “pessoas influentes, de dentro e de fora”, que alimentam o estado de confusão e impedem o amadurecimento do país.
Este descontrolo, segundo Moco, manifesta-se na forma como o poder é exercido, nas desigualdades sociais crescentes, na corrupção endêmica e na ausência de um projeto nacional coeso. “Saiamos disso, para que os próximos 50 anos sejam diferentes”, apela o autor.
O humanismo como resposta
Ao longo do texto, Marcolino Moco deixa transparecer a sua visão humanista. Ele rejeita o nacionalismo exacerbado, seja português ou angolano e defende uma abordagem mais universal, baseada no respeito pela dignidade humana e na responsabilidade coletiva.
O autor demonstra que é possível discordar de Ventura sem cair na intolerância. Ao mesmo tempo, mostra que é possível reconhecer aspectos positivos de um argumento, mesmo vindo de alguém ideologicamente distante. Essa postura reflete a maturidade política e intelectual que Moco sempre procurou transmitir ao longo da sua carreira.
Lições para Angola e o mundo lusófono
O texto de Marcolino Moco vai além de uma crítica ou defesa de Ventura. É, acima de tudo, uma lição para Angola e para o mundo lusófono. Convida à revisão de mitos históricos e à construção de uma nova mentalidade, capaz de unir em vez de dividir.
Nos 50 anos de independência, o país precisa, segundo Moco, de abandonar os fantasmas do passado e enfrentar os desafios do presente com lucidez. Isso inclui reavaliar as relações com Portugal e com as outras nações, sem ressentimentos nem subserviência.
A maturidade política e social exige reconhecer que a libertação verdadeira não é apenas territorial, mas também mental. É preciso libertar-se do rancor, da dependência e da manipulação internas e externas que têm impedido o florescimento de uma Angola plenamente soberana e justa.
O desafio dos próximos 50 anos
Marcolino Moco encerra o seu pensamento com um apelo à consciência coletiva: é tempo de romper com o ciclo de descontrolo e hipocrisia. O país precisa aprender com os erros, sem medo de questionar as verdades estabelecidas, e construir um futuro diferente.
A reflexão sobre André Ventura é apenas o ponto de partida para algo muito maior: a necessidade de Angola encontrar o equilíbrio entre o orgulho nacional e o humanismo universal.
Se os próximos 50 anos forem guiados por essa visão de autocrítica, inclusão e responsabilidade, talvez o país finalmente consiga realizar o sonho que inspirou os seus libertadores: uma Angola livre, justa e reconciliada consigo mesma.
Redação: Angola Breaking News
