
Luanda, 02 de Dezembro de 2025 — Há textos que expõem ideias; e há textos que escancaram vícios antigos da nossa cultura política. O ensaio de Kamalata Numa, “Os Bali Chionga”, é precisamente isso: um espelho incômodo. Um tapa elegante, mas firme, no rosto daqueles que confundem bajulação com pensamento crítico e transformam mediocridade em virtude pública.
Num continente vasto em identidades e histórias, Numa recorda que aparência e nome pomposo nunca foram sinónimo de lucidez. Porém, no cenário político angolano, há sempre quem vista o fato da erudição apenas para mascarar o vazio de conteúdo e nisso, diz o autor, os “Bali Chionga” são mestres.
A crítica é cirúrgica: despertar para o óbvio que 90% em eleições internas não cheira a democracia não é acto de coragem nem de génio. É apenas o mínimo. Mas há quem transforme esse atraso intelectual numa epifania, como se fosse iluminação divina. A bajulação aqui chega ao cúmulo de converter um mero interruptor aceso em luz celestial.
Dentro dos partidos, lembra Numa, o “consenso” nunca nasce do debate plural, mas do interesse conjuntural. De um jogo interno tão previsível que qualquer militante minimamente atento entende que congressos não são competições meritocráticas, mas coreografias bem alinhadas.
É neste contexto que os “Bali Chionga” se elevam em pedestal moral: criticam a democracia interna dos outros enquanto escondem os próprios processos opacos, monocromáticos e até medonhamente autoritários. Falam grosso, pensam raso e, não poucas vezes, gritam apenas para ouvir o próprio eco.
A questão é simples: que autoridade moral têm estes paladinos de fachada para apontar o dedo? Que experiência democrática carregam eles nas costas? A resposta implícita de Numa é devastadora: nenhuma.
O perigo, porém, não está apenas na hipocrisia, isso já é velho conhecido dos angolanos. Está no facto de que esta gente, estes “Bali Chionga” que confundem bajulação com patriotismo, estão entranhados em toda a engrenagem da sociedade. Obstruem, atrasam, sabotam e paralisam processos que exigiriam coragem e mente lúcida. Coisas que, segundo o autor, lhes faltam por completo.
Numa fecha o texto com uma lição que deveria ser tatuada nos muros do país: democracia não é nome bonito, nem rosto fotogénico. Democracia exige substância. Exige coerência. Exige coragem. Exactamente aquilo que os “Bali Chionga” parecem não possuir, mas fingem dominar.
E fingem com tanto entusiasmo, que até a própria bajulação velha, gasta, previsível, ganha um tom repugnante de comédia política.
