Rádio Provincial de Cabinda

Rádio Provincial de Cabinda funciona há mais de três anos num contentor

A Rádio Provincial de Cabinda enfrenta uma situação que levanta sérias questões sobre as condições de trabalho na comunicação social pública em Angola. Há mais de três anos, os profissionais da estação realizam emissões a partir de um contentor instalado no quintal da própria rádio, enquanto o edifício principal permanece degradado e sem sinais concretos de reabilitação.

A solução, inicialmente apresentada como provisória, acabou por se transformar numa realidade permanente para jornalistas, técnicos e demais funcionários. O espaço, segundo trabalhadores ouvidos no âmbito desta denúncia, não reúne condições adequadas para garantir o normal funcionamento de uma estação radiofónica provincial.

O problema torna-se ainda mais grave porque a rádio desempenha um papel relevante na informação da população de Cabinda, sobretudo na divulgação de acontecimentos locais, campanhas públicas e outros conteúdos de interesse provincial.

Edifício degradado continua sem obras

O antigo edifício da estação encontra-se, segundo os trabalhadores, em avançado estado de degradação. Durante o período chuvoso, a situação agrava-se, com infiltrações de água que atingem áreas onde estão instalados equipamentos e comprometem o normal funcionamento dos serviços.

Em determinadas ocasiões, a entrada de água terá mesmo obrigado à interrupção temporária das emissões, expondo não apenas os profissionais, mas também equipamentos fundamentais para a produção radiofónica.

Foi neste contexto que surgiu o contentor instalado no recinto da rádio. O que deveria representar uma alternativa temporária tornou-se, contudo, a principal estrutura de funcionamento da estação.

Os trabalhadores consideram que o espaço é pequeno e inadequado para receber, ao mesmo tempo, jornalistas, técnicos, convidados e equipamentos necessários à produção e transmissão dos programas.

A situação suscita uma pergunta inevitável: como pode uma rádio provincial continuar a cumprir a sua missão pública quando os próprios profissionais trabalham em condições que consideram indignas?

Promessa de reabilitação ainda não saiu do papel

Há cerca de dois meses, a governadora de Cabinda, Suzana Abreu, visitou as instalações provisórias da Rádio Provincial de Cabinda. Segundo os trabalhadores, a governadora terá demonstrado preocupação diante das condições encontradas e assegurado que seria mobilizada, com caráter de urgência, uma equipa para dar início às obras de reabilitação do edifício principal.

A promessa foi recebida com expectativa pelos funcionários, que há anos aguardam uma solução definitiva.

No entanto, de acordo com os trabalhadores, até ao momento nenhuma empresa terá iniciado as obras. A ausência de intervenção alimenta a frustração e aumenta a desconfiança entre os profissionais.

Alguns trabalhadores consideram que a promessa feita durante a visita governamental corre o risco de seguir o mesmo caminho de outras iniciativas anunciadas publicamente e que acabam por não produzir resultados concretos.

É precisamente neste ponto que a situação deixa de ser apenas um problema de infraestrutura. Passa também a representar uma questão de responsabilidade institucional e de respeito pelos profissionais que garantem diariamente o funcionamento da estação.

Conflitos internos agravam ambiente na rádio

Além das condições físicas, a situação interna da estação também estará marcada por tensão entre trabalhadores e a atual direção.

Em março deste ano, o presidente do Conselho de Administração da Rádio Nacional de Angola (RNA), Sebastião Lino, terá visitado a Rádio Cabinda e mantido um encontro com os trabalhadores.

Durante a reunião, mais de seis funcionários terão manifestado publicamente o seu descontentamento com a atual direção e solicitado a sua exoneração.

Segundo relatos apresentados pelos trabalhadores, alguns dos profissionais que participaram naquele encontro passaram posteriormente a enfrentar processos de transferência para outras províncias.

Um dos casos apontados é o de António Guida Madalena Zau, que terá recebido uma guia de transferência, com caráter urgente, para a província do Bengo, onde deverá apresentar-se na Rádio Bengo.

De acordo com os trabalhadores, a deslocação deverá ser suportada pelo próprio funcionário. Os colegas consideram a medida uma forma de transferência compulsiva e associam-na ao posicionamento assumido durante o encontro com a administração da RNA.

As alegações, contudo, carecem de esclarecimento formal por parte das entidades responsáveis, nomeadamente da direção da estação e da administração da Rádio Nacional de Angola.

Jornalistas denunciam ambiente de medo e insatisfação

Nos bastidores, o ambiente na Rádio Provincial de Cabinda é descrito pelos trabalhadores como cada vez mais tenso.

Além das condições de trabalho, existem queixas relacionadas com salários, organização interna e dificuldades enfrentadas diariamente para manter a estação em funcionamento.

Um dos jornalistas, falando sob anonimato, descreveu de forma contundente o ambiente existente: “A Rádio Cabinda tornou-se uma sanzala, onde quem manda faz o que bem entender”.

A declaração, embora represente a perceção individual de um trabalhador, revela o grau de insatisfação existente entre alguns profissionais.

Outro funcionário critica ainda a imagem que parte da população tem dos trabalhadores da comunicação social pública. Segundo o profissional, existe a ideia de que os jornalistas das instituições públicas beneficiam de privilégios por trabalharem para órgãos associados ao poder político.

Na sua perspetiva, porém, a realidade dentro da instituição seria bastante diferente.

“A população faz um julgamento público dos jornalistas, pensando que todos trabalham ao serviço do regime e que têm a vida feita. Mas a realidade é outra”, afirmou.

A denúncia coloca novamente em discussão a independência editorial, as condições de trabalho e a proteção dos profissionais que atuam na comunicação social pública.

Governo e RNA pressionados a apresentar respostas

A situação descrita pelos trabalhadores da Rádio Provincial de Cabinda exige respostas concretas das entidades competentes.

A primeira questão passa pela reabilitação do edifício. Depois de mais de três anos de funcionamento num contentor, os profissionais querem saber quando, efetivamente, serão iniciadas as obras prometidas.

A segunda prende-se com as condições atuais de trabalho. Enquanto a reabilitação não acontece, é necessário garantir que o espaço provisório ofereça condições mínimas de segurança, higiene e funcionalidade.

A terceira questão envolve as alegadas transferências compulsivas. Se os trabalhadores transferidos consideram que as medidas resultam da sua participação em protestos ou reivindicações internas, cabe à administração esclarecer os fundamentos administrativos e legais dessas decisões.

Mais do que uma disputa interna, o caso da Rádio Provincial de Cabinda expõe um problema maior: o estado das condições oferecidas aos profissionais da comunicação social pública em Angola.

Uma rádio provincial não pode ser tratada apenas como um espaço onde se colocam microfones e equipamentos. É uma instituição pública que presta um serviço de informação à sociedade e que depende de profissionais com condições adequadas para exercerem a sua atividade.

Por isso, os trabalhadores aguardam que as promessas de reabilitação deixem de ser anúncios e passem a obras concretas. Também esperam esclarecimentos sobre as transferências e sobre o futuro da atual direção.

Enquanto isso, a Rádio Provincial de Cabinda continua a emitir a partir de um contentor, numa situação que, para os seus trabalhadores, deixou há muito de ser provisória.

Fonte: Lourenço Lumingo

Redação: Angola Breaking News

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *