
O General Paulo Mendes de Carvalho Pacavira, amplamente conhecido como General Paka, tornou-se um incómodo evidente para um sistema habituado à obediência silenciosa e à crítica sussurrada nos corredores do poder. A sua linguagem directa, crua e sem filtros não é fruto de desvario, mas de uma opção consciente: dizer em público aquilo que muitos pensam, mas não têm coragem de assumir.
O General Paka nunca se escondeu atrás de metáforas suaves para descrever a realidade angolana. Assume o que diz e sustenta as suas palavras no princípio elementar da liberdade de expressão, algo que, em Angola, continua a ser tolerado apenas enquanto não belisca interesses instalados. A sua verticalidade e firmeza de carácter explicam, em grande parte, a fúria de sectores que preferem o conformismo à verdade.
Nos últimos tempos, surgiram acusações anónimas tentando associar o General Paka aos acontecimentos trágicos do 27 de Maio de 1977. Acusações graves, lançadas sem rosto, sem provas, sem nomes de vítimas, sem descrição de actos concretos. Um expediente velho, cobarde e revelador do desespero de quem não consegue enfrentar o debate de forma aberta. Se houvesse factos, haveria processos, não rumores espalhados no escuro.
No momento actual, é inegável: o General Paka está sozinho. Tornou-se, para muitos, o “general dos generais”, não por patente formal, mas por assumir publicamente reivindicações que os seus pares apenas murmuram em privado. A maioria dos generais limita-se a lamentações em “off”, reféns do medo de perder privilégios acumulados ao longo dos anos.
Salvo raras excepções, muitos dos que hoje ostentam estrelas nunca conheceram verdadeiramente a linha da frente. São produtos de gabinetes, jogos de influência e alinhamentos tribais. A história recente mostra que, no próprio 27 de Maio, vários generais sobretudo os oriundos do “maki”, revelaram uma postura de oportunismo e cobardia, explorando a mobilização popular em Luanda, conduzida por intelectuais de várias províncias que se juntaram às FAPLA e carregaram, nas costas, carreiras alheias.
O Executivo, em vez de escutar e dialogar, optou por empurrar o país para mais um conflito simbólico. As reivindicações do General Paka poderiam e deveriam ter sido analisadas com seriedade antes de se radicalizarem posições. Transformar um militar crítico num inimigo interno é uma estratégia perigosa e recorrente.
No fundo, o General Paka não inventou nada. Limitou-se a verbalizar aquilo que ecoa diariamente nas ruas de Angola: a revolta silenciosa de um povo cansado, empobrecido e desiludido. O problema não está no que ele disse, mas no espelho que colocou diante de um sistema que prefere não se ver.
Por Maria Luísa Abrantes | Redação Angola Breaking News
