
Por Kamalata Numa | Redação Angola Breaking News
Luanda, 04 de Janeiro de 2026
A ignorância política não é apenas uma falha individual de compreensão da realidade; transforma-se, muitas vezes, num perigo colectivo. Quando revestida de arrogância intelectual, torna-se ainda mais nociva. Há quem afirme ter estudado filosofia, história, sociologia ou direito, mas revele uma incapacidade gritante de interpretar os sinais do tempo presente. Falta humildade histórica, sensibilidade social e responsabilidade ética.
Em vez disso, observa-se a normalização do banditismo político, legitimado pela consagração de leis inconstitucionais, moldadas para perpetuar privilégios e silenciar a vontade popular.
Angola diante de um momento decisivo
Angola vive um dos momentos mais delicados da sua história recente. O país encontra-se num impasse político, social e moral que exige coragem, lucidez e verdadeiro sentido de Estado. Neste contexto, impõe-se a necessidade de um diálogo directo entre João Lourenço (JLO) e Adalberto Costa Júnior (ACJ), não como adversários irreconciliáveis, mas como líderes conscientes da gravidade do momento nacional.
O país precisa urgentemente de um Pacto de Transição Política Responsável para Angola. Tal iniciativa não deve ser vista como concessão pessoal ou capitulação política, mas como uma exigência concreta da realidade nacional.
Estratégias ultrapassadas e desgaste do poder
A actual conjuntura política não é favorável ao MPLA, nem aos seus estrategas, presos a fórmulas ultrapassadas e desprovidas de visão histórica. Persistem métodos arcaicos de mobilização, como as chamadas “maratonas” de cerveja barata, e aposta-se em bajuladores profissionais como sustentáculo do regime.
Além disso, continuam as estratégias de divisão, infiltração e desgaste das forças democráticas. Conforme observa o sociólogo Osvaldo Tchingombe, a instrumentalização de projectos políticos como o PRA-JA, alegadamente infiltrado por órgãos repressivos do Estado, visa fragmentar a oposição e enfraquecer qualquer alternativa real de mudança.
Estigmatização étnica e fratura nacional
É particularmente doloroso constatar que muitos desses bajuladores provêm do Huambo, enquanto os umbundus continuam, injustamente, a ser tratados como traidores da pátria. Esta lógica de estigmatização étnica e regional fere profundamente a coesão nacional e perpetua um modelo de governação baseado na desconfiança, no medo e na exclusão.
Uma nação não se constrói demonizando partes do seu próprio povo.
Um país exausto e ferido
Angola já sofreu demasiado. Décadas de guerra, promessas adiadas, transições inacabadas e reformas meramente cosméticas deixaram marcas profundas. Hoje, o país enfrenta problemas estruturais graves: um sistema de educação falido, um sistema de saúde incapaz de responder às necessidades básicas da população, pobreza extrema, desemprego massivo, salários indignos e cidadãos obrigados a alimentar-se a partir de contentores de lixo.
Esta realidade não é propaganda política. É o quotidiano vivido pela maioria dos angolanos.
Um pacto para salvar o futuro
Chega de estratégias rastejantes e jogos de bastidores que apenas prolongam o sofrimento colectivo. Angola não precisa de mais manobras políticas, mas de um compromisso sério com o futuro.
Um Pacto de Transição Política Responsável deve assentar em princípios claros e inegociáveis:
- respeito pela Constituição;
- reformas eleitorais credíveis;
- separação efectiva de poderes;
- liberdade de imprensa;
- justiça verdadeiramente independente;
- inclusão de todas as forças vivas da nação.
Coragem cívica e responsabilidade histórica
O angolano, seja membro da sociedade civil, militante partidário, cidadão residente no país ou na diáspora, deve erguer-se. É tempo de abandonar o medo e a resignação. É tempo de exigir, de forma pacífica, consciente e determinada, um novo contrato político que permita o reencontro nacional.
Um pacto que conduza à unidade verdadeira, à paz duradoura, à reconciliação sincera e à liberdade plena da Grande Família Angolana.
O grande mal da Humanidade é ver regimes democráticos cooperarem com regimes ditatoriais e autocráticos, nada fazendo. A história não absolverá os que, tendo conhecimento e poder, escolheram a ignorância política como método de alianças e governação. Mas também não perdoará o silêncio dos que viram o país afundar-se e nada fizeram.
O futuro começa com a coragem de dizer basta e de exigir responsabilidade.
Obrigado.
