
A discussão sobre a implementação das Autarquias Locais volta a ganhar intensidade no panorama político angolano. Desta vez, o debate é reacendido por uma crítica contundente de Albino Pakissi às recentes declarações de Esteves Hilário, figura reconhecida por defender, no passado, a democracia participativa através da institucionalização das autarquias.
Segundo Pakissi, as palavras agora proferidas por Esteves Hilário representam uma contradição evidente em relação ao seu histórico discurso político. O autor lembra que o dirigente, outrora defensor intransigente das autarquias como mecanismo indispensável para o exercício pleno da cidadania, agora afirma que “o povo não come autarquias”.
Para Albino Pakissi, esta afirmação é não apenas infeliz, mas revela um afastamento da realidade social e política do país. Na sua análise, “o povo come sim autarquias”, pois a descentralização administrativa seria a única via para impedir que alguns dirigentes e correligionários do MPLA continuem a viver com privilégios excessivos, “à grande e à francesa”, enquanto decisões de impacto nacional são tomadas exclusivamente a partir de gabinetes na capital.
Pakissi critica o que considera ser uma postura elitista e desconectada, alertando que muitos quadros continuam a agir como se tivessem o direito, quase divino, de determinar o rumo de toda a população. Para ele, esta visão centralizadora apenas reforça desigualdades, distancia o poder das comunidades e perpetua práticas que não beneficiam o crescimento democrático do país.
O autor vai mais longe, classificando este tipo de posicionamento como “falta de lucidez e alienação prática”. Sem poupar palavras, afirma que tais atitudes demonstram um desapego completo dos problemas reais das populações, que continuam à espera de maior autonomia local, melhores serviços públicos e mais transparência na gestão dos recursos.
Num tom mais pessoal e espiritual, Pakissi revela a sua tristeza ao notar que muitos dos que defendem tais “barbaridades”, como descreve, são católicos. Cita ainda Paulo Viana, concordando que há incoerências profundas entre fé cristã, compromisso social e posturas políticas que negam avanços democráticos fundamentais.
A discussão sobre as autarquias permanece uma das mais sensíveis e polarizadoras no país. Enquanto sectores da sociedade civil continuam a exigir a sua implementação como instrumento de democratização e desenvolvimento local, algumas vozes políticas insistem em relativizar a sua urgência ou importância.
A crítica de Albino Pakissi, forte e directa, reflecte o sentimento de muitos angolanos que consideram que sem autarquias não haverá verdadeira participação popular, nem um equilíbrio efectivo na distribuição do poder. A expectativa recai agora sobre o futuro próximo: avançará Angola, finalmente, para um modelo de governação mais descentralizado?
Redação: Angola Breaking News
