Reflexão de Marcolino Moco sobre o equilíbrio entre a grandiosidade das celebrações e as fragilidades do país

O brilho das comemorações e o orgulho nacional
As comemorações dos 50 anos da Independência de Angola, realizadas com pompa e circunstância na capital do país, foram marcadas por um misto de emoções, contrastes e reflexões profundas sobre o caminho percorrido pela nação desde 1975. O evento, que reuniu representantes de várias instituições, forças armadas, partidos políticos e cidadãos, tornou-se um retrato fiel da própria Angola, um país de beleza e grandeza inquestionáveis, mas também de contradições entre o sonho e a realidade.
O lado bom da celebração foi, sem dúvida, o desfile vibrante que mostrou ao mundo a diversidade cultural e social do povo angolano. As diversas camadas da sociedade desfilaram lado a lado, unidas num mesmo sentimento de orgulho nacional. As cores, os ritmos e as danças tradicionais, acompanhados por canções que narram a história de um povo resistente, fizeram do momento um espetáculo de identidade e pertença.
Foi uma oportunidade rara para revisitar a alma angolana através das suas expressões artísticas e culturais, lembrando que, apesar das adversidades, há uma força que continua a pulsar no coração do país. As canções entoadas resgataram memórias de luta e esperança, enquanto as danças exaltaram o talento e a criatividade que caracterizam a juventude angolana.
A emoção estava presente nos rostos dos mais velhos, que viveram os dias da independência, e a esperança nos olhos dos jovens, que sonham com um futuro mais próspero. A nação celebrou, por um instante, a unidade e a paz conquistadas a duras penas após décadas de conflito e sacrifício.
O contraste entre o espetáculo e a realidade
No entanto, nem tudo foi brilho e harmonia. O lado mau da efeméride também se fez sentir de forma evidente. O evento, embora majestoso, revelou o que muitos consideram ser um traço recorrente da governação e da cultura política angolana: a busca pela grandiosidade, mesmo quando a realidade clama por sobriedade.
As celebrações foram marcadas por uma organização que priorizou o espetáculo em detrimento da simplicidade e da acessibilidade. As ruas estreitas e congestionadas de Luanda, que acolheram a parada, tornaram-se uma metáfora viva das limitações do próprio país, espaços pequenos tentando comportar ambições imensas. O trânsito caótico e os engarrafamentos intermináveis pareciam espelhar a própria situação económica e social da nação: um sistema que tenta avançar, mas constantemente se vê bloqueado por obstáculos estruturais.
Outro ponto que gerou reflexão foi a exibição dos meios bélicos durante o desfile. Os tanques, as viaturas militares e o armamento pesado desfilaram em linha, num espetáculo de força que remeteu a tempos de guerra e rivalidade. Contudo, muitos se perguntaram se tal demonstração ainda faz sentido num contexto em que Angola já não enfrenta inimigos externos significativos.
A exibição, embora impressionante, soou desproporcional diante das dificuldades que assolam o povo angolano, o desemprego, a fome, a falta de água potável, as falhas no sistema de saúde e o custo de vida cada vez mais insuportável.
Como observou o autor da reflexão, “os espaços são exíguos, como as ruas da nossa capital”, e “os meios bélicos são enormes, para tão poucos inimigos que temos hoje”. Uma metáfora precisa sobre as prioridades do Estado, que muitas vezes parecem invertidas em relação às necessidades reais das populações.
O discurso presidencial e as feridas do passado
Mas o ponto mais controverso de todo o acto foi o discurso do Presidente da República, João Lourenço. Embora muitos esperassem uma mensagem conciliadora e voltada para o futuro, o discurso acabou reacendendo feridas antigas. O Chefe de Estado evitou mencionar explicitamente os antigos adversários da guerra civil, mas o tom e as alusões deixaram transparecer uma leitura parcial da história.
Ao referir-se ao “apartheid” e às lutas ideológicas do passado, o Presidente evocou temas que, segundo críticos, já foram superados pelos próprios protagonistas sul-africanos, que optaram pela reconciliação e pelo perdão. O comentário gerou desconforto, especialmente pela ausência notada do Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, que, curiosamente, não compareceu nem enviou representantes de alto nível.
A coincidência fez crescer a especulação: teria Ramaphosa sido informado antecipadamente sobre o teor do discurso e, por isso, optado por não marcar presença? Para muitos analistas, o momento pedia uma mensagem mais voltada à unidade e à reconstrução, sobretudo num contexto em que o país enfrenta desafios económicos e sociais profundos.
O povo esperava um discurso inspirador, que reconhecesse o passado, mas que também apontasse para o futuro, um futuro em que todos os angolanos, independentemente da cor política, possam sentir-se parte de um mesmo projeto nacional.
Reconciliação e futuro: o desafio de João Lourenço
João Lourenço tem manifestado o desejo de ser lembrado como o “campeão da Reconciliação Nacional”. Porém, para que isso aconteça, é preciso mais do que palavras: é necessário abrir espaço ao diálogo, à inclusão e à reparação histórica. O Presidente é chamado, agora, a “cimentar os buracos deixados pelas operações Carlota e Cuito Cuanavale nas estradas da História”, como escreveu Marcolino Moco, e permitir que o povo angolano, especialmente a juventude, possa seguir em frente, sem ficar aprisionado às divisões do passado.
Os 50 anos de independência deveriam ser mais do que uma celebração de feitos políticos ou militares, deveriam ser um marco de introspecção nacional. Meio século depois, Angola continua a lutar para realizar o sonho de justiça social, desenvolvimento e igualdade que inspirou os heróis da libertação.
Em suma, o bom no acto central foi a exaltação da identidade nacional e o orgulho de um povo que resiste. O mau foi a insistência em repetir erros de forma e de conteúdo, num momento em que a simplicidade e a sensibilidade social deveriam ser o foco.
Se o objetivo é que João Lourenço seja lembrado como o líder da reconciliação, o caminho passa por ouvir mais, unir mais e olhar menos para as glórias do passado. O verdadeiro legado de 50 anos de independência não está nos tanques nem nas paradas, está na capacidade de transformar sofrimento em sabedoria e história em esperança.
Autor: Marcolino Moco
Edição e adaptação: Redacção Angola Breaking News
